e eis que chegam as caravelas
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saudade de ser índia...
quando o coração está a derramar litros de sangue é impossível escrever
o líquido vermelho se espalha no papel e mancha o que estava escrito
pois então, se todos os meus pensamentos virassem palavras em textos seria bonito.
gosto da minha poesia que vê o mundo,
mas tenho a impressão que é isso mesmo, ela só vê. não sabe falar.
de volta as palavras!
um dia todas elas se foram e o papel sofreu a falta do atrito áspero do grafite.um dia elas se calaram e o vento sofreu a falta do som confuso das vozes.um dia elas mentiram tentando dizer a verdade e o fogo consumiu o papel.
eu preciso me ver a uma artística distânciade longe e do altosaber qual é o meu tamanho nesse imensomar das palavras, das coisaspairar por cima delas, voar, sobrevoarminhas máscaras, ver-meeu preciso me afastar de mimficar de fora da moral que me compõedecompô-la, desfazê-laver minha aparência
— Então afirma - disse van Leyden sintetizando para si próprio as palavras do Marquês - que no fundo, a cura se realiza através da entrega total ao magnetismo e que a mais mínima reserva destrói seu efeito totalmente?
— Não - respondeu Puységur, - embora aquilo que esteja dizendo seja pertinaz, chega a um resultado totalmente errado. Ao invés de deixar que as coisas aconteçam, o senhor trata de se antecipar com os pensamentos. Imediatamente surgem as duplicações e fazem com que tudo retroceda. Quando se começa a falar de alguma coisa, já se perde tudo o que é decisivo. Não existe "entrega ao magnestimo". Porque a entrega total ou a unidade da vontade é o magnetismo propriamente dito e, assim, é um absurdo falar da entrega ao magnestismo. A própria entrega já é mais do que suficiente e é nela que residem os elementos necessários para o sucesso. Pare de produzir ideias a respeito, porque estas seriam apenas formas de evitar ou de controlar.

"{...} os conceitos (como todos os conceitos e, aliás, todas as palavras) vêm carregado de acréscimos - cada um deles está sobrecarregado por sua carga psíquico-cultural, como convidados que suspeitosamente chegam com enorme excesso de malas para quem vem apenas passar o fim de semana." (Hakim Bey, Caos. São Paulo: Conrad, 2003)
qual é a cor do seu cabelo quando a luz do sol chega ao japão?
qual é o dia mais feliz da unha do seu pé?
qual é o aspecto mais bonito do seu joelho?
onde você está quando volta para casa?
onde fica seu estômago enquanto você toma banho?
em que lugar fica o caminho para a sua intensidade?
fique frio, o dia já vai acabar.
fique longe quando o vento abrir a porta do seu quarto.
fique quieto que eu quero dormir.
"Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida; e os sentidos possíveis são muitos." (Soares, Bernardo apud Pessoa, Fernando. Aforismos e afins. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 10)