terça-feira, 24 de abril de 2012

les femmes savantes: sabichonas ou eruditas?

Em 1672 foi apresentada pela primeira vez em Paris a peça “Les femmes savantes” de Molière. Traduzindo o título ao pé da letra teríamos uma versão brasileira intitulada “As mulheres sábias”. Contudo, as traduções brasileiras conhecidas dessa obra não levaram o nome literal adiante. A primeira, feita por Jenny Klabin Segall na década de 1960, recebeu o título de “As sabichonas”; a segunda, de Millôr Fernandes, ficou sendo “As eruditas”. Creio que a mudança do nome em brasileiro seja adequada aos novos tempos... Na época de minha avó o termo de Segall talvez tivesse mais impacto... Lembro-me até que ela, minha avó, costumava usar o adjetivo para se referir, com humor e um leve traço de simpatia, às mulheres mais independentes e mandonas. “A sabichona da Rosilda já deu um jeito no marido. Agora ele não atrapalha mais nossos chás-da-cinco na terça feira, ficamos à vontade para colocar nossos assuntos em dia”. Optei nesse texto pelo termo “sabichona”. Por dois motivos: o primeiro, e mais importante, é que ele me faz lembrar minha avó, sua maneira de falar, seu vocabulário; o segundo, é que o termo soa mais literário que “erudita”.

Molière foi um influente dramaturgo francês do século XVII que ganhou destaque na produção, encenação e direção de comédias. Era um observador dos tipos e trejeitos humanos, elementos explorados com perspicácia em seus personagens. Entre tantos aspectos da sociedade francesa parodiados e satirizados por ele, o salão literário ganhou referências especiais... assim como suas damas...
A primeira dessas peças foi encenada em 1659 em Paris e recebeu o título de Précieuses ridicules (em brasileiro literal, “Preciosas ridículas”). Essa peça, que segundo Erich Auerbach fazia referência “a primeira e mais brilhante das “sabichonas”, a marquesa de Rambouillet”, teve tamanho impacto na sociedade francesa e descreveu tão ‘perfeitamente’ as reuniões íntimas dessas importantes madames que o termo précieuse tornou-se sinônimo de... sabichonas! (segundo o tradutor do texto José Paulo Paes), e era amplamente utilizado pelos frequentadores dessas reuniões para se referir ‘carinhosamente’ a suas anfitriãs. (p. 194-5)

 Catherine de Vivonne, a marquesa de Rambouillet, e sua filha Julie de Montausier.
Gravura de Roger-Viollet, século XVII.

Para acomodar o leitor ao costume da época, apresentarei algumas características dos tais salões literários: dizem que lá pairava uma intimidade elegante compartilhada por pessoas de nascimento diverso em pé de igualdade no que diz respeito à boa educação e ao nível moral, intelectual, estético e galanteador dos participantes. Segundo a historiadora Dominique Godineau, “o salão do século XVIII é um dos novos lugares de sociabilidade onde se encontram lado a lado nobres, burgueses ricos, letrados, homens de ciência de todas as nacionalidades”. Tais participantes, além disso, demonstravam um eloquente gosto pelo romance, o emprego exagerado de metáforas e um acentuado pedantismo na análise dos sentimentos.

São nomes que fizeram a história dos salões literários da França: madame de Rambouillet, já citada, madame d’Épinay, madame de Geoffrin, madame du Châtelet, mademoiselle de Lespinasse, madame du Deffand, madame Necker... Voltaire, d’Alembert, Diderot, Grimm, Buffon, Montesquieu, abade Galliani... etc, etc, etc.

Essa pintura de Anicet Charles Lemonnier, do século XIX, representa a leitura da tragédia "L'Orphelin de la Chine", de autoria de Voltaire, no salão de madame de Geoffrin em 1755. Estão retratados na imagem Diderot, Turgot, d'Alembert, Condillac e Voltaire (seu busto).

Enfim, o leitor deve estar ansioso para ir além das questões relativas à tradução do título e ao contexto histórico e adentrar o universo teatral de “Les femmes savantes”. Vamos à obra!

A sátira recai sobre as “mulheres da cultura”, as sabichonas que se encantavam pelo conhecimento filosófico e pela poesia ilustrada, eruditas que se tornavam referência na crítica da arte. Chamarei tais mulheres de femmes des lettres, expressão que não era usada na época. Na época, no entanto, era usado o termo hommes des lettres. Particularmente não vejo problema algum em se referir a homens e mulheres com o substantivo “homens”, afinal, nossa língua brasileira leva os nomes para o masculino quando o grupo é composto por indivíduos de sexos diferentes. Não tenho crise com expressões do tipo “um país se faz com homens e livros”, pois consigo compreender tranquilamente que o autor, no caso o ‘grande’ Monteiro Lobato, estava se referindo também às mulheres... Agora, já que falamos dos séculos XVII e XVIII, temos que fazer essa ressalva..., quanta diferença há entre “homens de letras” e “sabichonas”...

À peça, então.

A trama principal gira em torno de uma família burguesa bem posicionada na sociedade francesa. Os personagens são: Crisaldo, o patriarca; que é também marido de uma sabichona, a Filomena, que mantém um salão literário. Armanda, a filha mais velha, que entregou corpo e alma à filosofia. Acha o casamento um horror! É ela quem diz à irmã: “— A mim a palavra casamento só me traz visões imundas, submissões inúteis, contato repelente – não consigo entender você contente”. Henriqueta, a mais jovem, despreza o saber ilustrado e sonha com um marido a quem possa dedicar a alma, e também o corpo. “— E tem realização maior, pra alguém da minha idade, do que amar e ser amada, poder casar com o homem que deseja e construir com ele uma vida de compreensão e de felicidade”?

E assim começa a saga de Henriqueta para conseguir da mãe a aprovação de Cristóvão como seu marido. O caso é que Filomena já tem sua preferência. É Tremembó, um filósofo-poeta que frequenta suas reuniões e que, segundo crê, sensibilizaria sua filha para as coisas do espírito. Crisaldo e Aristides, seu irmão, apóiam Henriqueta em sua vontade; enquanto isso, a irmã, a mãe e Belisa, a tia, são partidárias fanáticas de Tremembó, por quem se derretem...
Aqui o leitor poderia pensar: — Então, tudo resolvido, se o pai da rapariga, o patriarca, apóia o casamento com Cristóvão, quem mais poderia impedi-lo? O fato é que, apesar de estarmos no século XVIII, nessa família quem costuma decidir os rumos da casa é ninguém mais ninguém menos que ela, Filomena.

Conversa vai, conversa vem, um impasse aqui, outro acolá, e quem acabou vencendo a disputa foi mesmo Henriqueta. Não que ela tenha convencido a mãe... foi o próprio Tremembó quem se mandou. Como? Por quê? O que fez o rapaz mudar de ideia? Pois bem, foi Aristides, o tio, quem lançou mão de uma artimanha infalível para convencer a sabichona e dar fim no pseudo poeta. Em presença do escrivão que deveria redigir o contrato de casamento, em meio a uma discussão entre os progenitores para decidir qual dos dois pretendentes seria o marido, Aristides aparece cabisbaixo trazendo duas cartas bombásticas. A primeira delas, para Filomena, anunciava que uma de suas disputas judiciais chegara ao fim... e ela havia perdido toda sua fortuna; a segunda, para Crisaldo, avisava sobre sua bancarrota. O desespero toma conta da família, o suor escorre do cabelo empetecado da grande dama, Crisaldo quase chora... Henriqueta e Armanda visualizam seu futuro pobre... Mas, passado o primeiro susto, logo Filomena vira de lado e proclama: “— Oh, mais que vexame! Que aflição indigna! Dar importância funesta a uma simples perda material! Para uma pessoa sábia o dinheiro não importa. Só dá importância a ele quem tem uma visão torta. Mas vamos com a cerimônia que a vida passa veloz. (Aponta Tremembó). Os bens que ele possui chegam bem pra todos nós”.
Mas eis que o poeta não concorda tanto assim com madame sabichona. Ligeiro, muda de ideia e dá no pé. Um breve silêncio toma conta da casa... e Cristóvão, timidamente, pede a palavra: “— Por mim eu gostaria de ser um pouco mais mercenário pois teria agora mais o que oferecer. Aceite porém, minha senhora, o pouco que eu tenho e rogo-lhe que não deixe que ninguém mais se intrometa no grande amor que devoto a Henriqueta”.
E Henriqueta, apaixonada, agora não quer mais se casar... Não deseja desgraçar a vida de seu ex-futuro marido dando-lhe uma família falida. O tio, percebendo o andar da carruagem, logo interrompe: “— [...] As notícias que eu trouxe não eram verdadeiras. Um estratagema, uma mentira que inventei para servir ao amor. Para mostrar a minha irmã a ambição que vivia debaixo da saia da filosofia”. Aliviados e felizes, dá-se assim o casamento.

Agora que o leitor já conhece os rumos dessa história, vamos a alguns trechos do texto teatral a fim de averiguar o tom da sátira de Molière. Seleciono trechos emblemáticos da fala dos personagens. A começar por Cristóvão.

Ele diz, entre outras pérolas: “— [...] Francamente, as mulheres eruditas não me agradam. Admito que uma mulher não seja só matrona, mas há um grande abismo entre uma dona sábia e uma sabichona. A sabedoria não faz nenhum mal desde que a mulher não esqueça o que é essencial. É bom que, algumas vezes, abandone o que sabe, seja simples no que diz, original no que faz, sem citar grandes nomes, sem tiradas pomposas, pois quem exibe cultura sem motivo, é motivo de riso”.

A seguir um diálogo entre Crisaldo, Belisa, sua irmã, e madame Filó. A sabichona acabara de demitir a cozinheira porque ela não fazia uso correto da norma culta. 
Começa Crisaldo: “— Pronto, ela foi despedida. E deu sumiço. Mas agora lhe digo: não aprovo nada disso. Uma moça boa e trabalhadora e você a despediu por motivo imbecil”.

Filomena: “— Que é que você queria? Que eu ficasse com ela me estropiando os ouvidos o dia todo, infringindo todas as regras do costume e da razão, com erros de sintaxe e vícios de oração, palavras deturpadas, mutiladas, errando todos os vocábulos e falando na sala expressões dos estábulos”?

Belisa: “— Você não, mas eu suo quando você a chama e, em vez de Senhor?, ela pergunta Inhô? Um verdadeiro escárnio ao grande Aureliô. E fala tanta besteira que já nem me causa pasmo um solecismo, uma cacofonia ou um pleonasmo”.

Crisaldo: “— Que me importa o nome do teu bisavô, que me importa a glória desse Aureliô, que me importa uma ciência senil e arbitrária se ela conhece as leis da culinária? A mim pouco me importa que quando está cozinhando, ela coloque mal concordância e regência, diga palavras grosseiras, solte palavrões e decline de forma errada: desde que não queime a minha carne assada. Me interessa mais a língua na panela do que na boca dela”.

Belisa: “— Na boca dela, oh”!

Filomena: “— Meu Deus, na boca dela”!

Crisaldo: “— Aureliô não ensina ninguém a fazer sopa. E esses teus literatos não sabem conjugar o mais simples dos pratos”.

Filomena: “— Eu me sinto envergonhada só de ouvir você gritar esse discurso estúpido! Que indignidade pra quem se diz um homem, só pensar todo o tempo em coisas materiais, sem se elevar um instante às preocupação dos espíritos. Será que o corpo, sujo e precário, merece de nós tanta atenção? Não será mais sábio esquecermos que existe, nos libertarmos de sua opressão”?

Crisaldo: “— Liberte-se você que o corpo teu é teu, mas deixa em paz o meu. Do meu, eu trato. Sujo e precário, o que você quiser, mas é o que se tem – e eu vou tratá-lo bem”.

Belisa: “— O corpo e o espírito são um conjunto só, meu caro irmão. Mas se o que os sábios dizem não é pilhéria, o espírito tem valor maior do que a matéria. Nossa preocupação é dar-lhe precedência e alimentá-lo bem com o suco da ciência”.

Crisaldo: “— Estou de acordo quanto à alimentação. Mas, com suco? Isso não! Devemos dar ao espírito refeição mais exata: um bom naco de carne, arroz, batata, para enfrentarmos precalços...”

Belisa: “— Precalços! Sim senhor”!

Crisaldo: “— Precalços ou percalços, a mim pouco me importa. Já estou cheio. Estou farto de ouvir vocês falando como se fossem as donas da cultura, quando aí fora o que dizem é que estão completamente loucas. Malucas, sim senhoras...”

Filomena: “— Como? Que teria a ousadia?...”

Crisaldo: “— (A Belisa) Falo mais a você, adorada irmãzinha. Fica toda irritada com o menor solecismo sem reparar que o seu comportamento é todo um barbarismo. Essa quantidade de livros em que vive mergulhada é uma montanha de lixo que não vale nada. Isto é: com exceção daquele Plutarco com capa de lona que eu uso para calçar o braço da poltrona. Você devia queimar toda essa porcaria, toda essa falsidade e deixar a ciência com os sábios de verdade. Quebrar ou botar fora a luneta imensa que está lá no sótão e as outras bugigangas com que vê não sei o quê. Esquecer um pouco o que se faz na lua e preocupar-se mais com a arrumação da casa, obrigação sua. Não é nada direito que uma mulher estude mil coisas irreais e descuide, na prática, das coisas mais banais. Orientar os filhos no caminho da vida, dirigir e comandar a criadagem, manter a casa limpa e arejada, gastar dinheiro com economia, taí uma filosofia. [...] Ah, como estão longe disso as madames de agora! Querem só escrever, citar autores, e a atividade do lar virou uma coisa indigna. E nesta casa, então, isso chegou à loucura total, pois aqui vocês sabem tudo, tudo, tudo, menos o fundamental. [...] O racionalismo aqui virou uma doutrina e, racionalizando, ninguém mais raciocina”.

Porém, nem todas as femmes des lettres dos séculos XVII/XVIII tinham ares independencionistas como o de Filomena. Lembremos que a obra de Molière é, antes de qualquer coisa, uma comédia, uma caricatura satírica de costumes de sua época. Segundo Godineau, madame Roland, por exemplo, uma proeminente madame de salão setecentista, não compartilhava com Filomena das ‘liberdades decisórias’ que essa personagem molièriana expressa. Diz a historiadora sobre madame Roland:

[...] Manon Roland não se considerava porta-voz ou representante do seu sexo. “Não creio que os nossos usos permitam ainda às mulheres mostrar-se abertamente, escrevia numa carta de abril de 1791; elas devem inspirar o bom, devem alimentar e encorajar todos os sentimentos úteis à pátria, mas não devem mostrar que contribuem para a ação pública. Só poderão agir abertamente quando todos os franceses tiverem merecido o nome de homens livres”. Ela própria assinava quase sempre com o nome do marido ou então deixava o texto anônimo. (p. 331)


Apenas como curiosidade histórica, madame Roland, apesar das críticas às feministas revolucionárias, não teve destino diferente do de suas contemporâneas: foi guilhotinada em novembro de 1793, cinco dias depois de Olympe de Gouges, a famosa! Segundo Godineau, apenas alguns dias depois da queda da cabeça de Manon Roland um panfleto popular chamado Folha da saúde pública publicou o seguinte recado aos “republicanos”:

A mulher de Roland, belo espírito animado por grandes projetos, um monstro segundo todos os pontos de vista, sacrificou a natureza, querendo elevar-se-lhe; o desejo de saber levou-a a esquecer-se das virtudes do seu sexo, e este esquecimento, sempre perigoso, acabou por fazê-la perecer no patíbulo. (p. 331)

Pois é, não foi apenas a fogueira religiosa que queimou bruxas. Os bravos e revolucionários burgueses franceses também deram fim a destacadas femmes des lettres...! Ainda que o episódio revolucionário tenha acontecido cento e vinte e um anos depois da primeira apresentação de “As eruditas”, ouso dizer que o imaginário social francês acerca dos papéis sexuais não havia então experimentado grandes revoluções... Tais revoluções só viriam a ocorrer na cultura ocidental em meados do século XX... cento e tanto anos depois da morte de madame Roland...


E para terminar, mais um trechinho das femmes savantes. A cena a seguir se passa entre Filomena, a sogra, Cristóvão e Tremembó. 
Quem começa é ela: “— [...] O senhor Cristóvão não lhe acharia interesse pois tudo que é ciência lhe causa repugnância: faz profissão de fé de apregoar a própria ignorância”.

Cristóvão: “— O que a senhora afirmou merece atenuantes, não sou contra os sábios, sou só contra os pedantes. Não combato a ciência, combato a impertinência que se faz passar por ciência. Não sou contra a leitura mas contra quem arrota uma falsa cultura”.
Tremembó: “— Por mim eu gostaria de saber de que maneira o senhor distingue uma cultura falsa de uma verdadeira”.

Cristóvão: “— A falsa cultura a gente logo nota: é só olhar bem pra cara do idiota”.


Referências bibliográficas:
Auerbach, Erich. Introdução aos estudos literários. Trad. José Paulo Paes. 2 ed. São Paulo: Cultrix, 1972.
Godineau, Dominique. “A mulher”. In: Vovelle, Michel. (Org.) O Homem do Iluminismo. Trad. Maria Georgina Segurado. Lisboa: Editorial Presença. 1997, p. 311-334.
Molière. As eruditas. Trad. Millôr Fernandes. Porto Alegre: LP&M, 2008.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os personagens de Raul Seixas


Eu nunca cometo pequenos erros
Enquanto eu posso causar terremotos
E das tempestades já não tenho medo
Acordo mais cedo
Eu nunca me animo de ir ao trabalho
Eu sou o curinga de todo baralho
[...]
(Raul Seixas. Moleque maravilhoso, Gita, 1974.)

Raul Seixas: uma metamorfose ambulante, ator da vida, o curinga do baralho. Poeta mascarado. Bobo da corte que, como tal, tem condições de ridicularizar o próprio rei sem por isso ser punido. Criador de mundos, o carpinteiro do universo, inventor da cidade de cabeça pra baixo, autor do ei-ei-ei realista. Facetas.
Uma vida, muitas histórias. Como cantor, Raul consegue se inserir no cotidiano sonoro de pais, mães e filhos e, de lá, manda seu recado. À sua maneira, fala de coisas sérias e bastante incisivas sobre as práticas culturais daqueles que o escutam, contudo, consegue não pesar (muito) o ambiente.
Do final da década de 60 ao final da década de 80 e além, a música de Raul povoa o imaginário de muitas famílias brasileiras. Às vezes irônico, às vezes realista, erótico, trágico, cômico, profético, contestador, Raul compõem múltiplas estéticas e obtém múltiplas escutas. Seus personagens alcançam pessoas das mais variadas idades, dos mais variados gostos, dos mais variados tipos. Mas, será Raul Seixas a soma de seus personagens? Para essa pergunta, imagino, há tantas respostas quanto as que se quiser dar. Por isso, ouso dar a minha opinião que, reconheço, não é solitária: Raul Seixas não é a soma de seus personagens. Sua obra não cabe no tamanho de sua pessoa, ela transborda, se expande, ou como diz em Senhora Dona Persona: “[...] os homens passam e as músicas ficam”.
Certo filósofo alemão diria o seguinte:

“[...] o melhor é certamente separar o artista da obra, a ponto de não tomá-lo tão seriamente como a obra. Afinal, ele é apenas a precondição para a obra, o útero, o chão, o esterco e adubo no qual e do qual ela cresce — e assim, na maioria dos casos algo que é preciso esquecer, querendo-se desfrutar a obra mesma.” (Nietzsche, Genealogia da Moral, [4, III], p. 90).

Nesse trecho, ao afirmar ser melhor separar o artista da obra, Nietzsche apresenta também sua opinião em relação à interpretação da arte. E diz que, se se quiser apreciar uma obra de arte por ela mesma, deve-se esquecer o autor, deve-se evitar a ‘contiguidade psicológica’ entre artista e obra. O artista não é o que representa. “[...] Na verdade, se ele o fosse, não o poderia representar, conceber, exprimir; um Homero não teria criado um Aquiles, um Goethe não teria criado um Fausto, se Homero tivesse sido um Aquiles, e Goethe um Fausto.”1
Não gostaria de falar, portanto, da história de vida de Raul, de sua biografia, gostaria de focalizar apenas sua música, aumentar o volume da sua voz para que ela possa ressoar na imensidão do espaço e percorrer universos de ondas sonoras.

Os personagens de Raul Seixas

De Deus a Judas, de mensageiro do Diabo a filho do Sol, de anarquista libertário a egoísta, de jovem contestador a aposentado indignado...2 a cada música um personagem, um ponto de vista, uma perspectiva da vida; a cada música um ouvinte, um destinatário: o operário , a prostituta, o jovem conformado, a ‘indesejada das gentes’, a esposa, o hippie, os teóricos da vida3. Eis algumas das máscaras de um bobo da corte que nasceu para ser ator, embora fingisse ser cantor e compositor:

Eu costumo dizer que eu sou um tão bom ator que eu finjo que sou compositor e cantor e todo mundo vai na onda [...].
(Raul Seixas entrevistado por Marília Gabriela, You Tube, 1983)

Pois nessa vívida carreira de ator, Raul veste-se de figuras cotidianas, fala de acontecimentos triviais, de dúvidas corriqueiras, de angústias existenciais, de emoções arrebatadoras. Trocando continuamente suas máscaras, traz para suas músicas os dramas da vida e ensina o ouvinte a “estimar o herói escondido em todos os seres cotidianos”, bem como a “arte de olhar a si mesmo como herói, à distância e como que simplificado e transfigurado”4. Raul encena, em seu fabuloso palco musical, o teatro da vida.

Um baile de máscaras

Primeira máscara: Deus

Alô, aqui é do céu
Quem tá na linha é Deus
Tô vendo tudo esquisito
O que que há com vocês
Por favor, não deixem a peteca cair
Que o diabo diz que vai baixar de uma vez por aí
Eu fiz vocês como eu
Imagem e perfeição
E vocês anarquizando
A minha reputação
Não é só novena, terço e oração
Em vez de resmungar eu quero é ver
Vocês em ação
Vocês em ação
Foram milhões de anos dedicado a vocês
Fazendo vossas cabeças, não fui eu quem marquei
[...]
(Raul Seixas. DDI, Raul Seixas, 1983)

Numa levada ‘rock progressivo’, Raul ataca em tom profético. Nessa música entra em cena Deus, um Deus moderno que usa o telefone para falar com suas criaturas em fábula intitulada D.D.I. (Discagem Direta Inter-estelar).
Indignado com os rumos da humanidade, o soberano resolve entrar em contato com seus homens por meio desse sofisticado meio de comunicação. Avisa-os dos riscos que correm caso deixem a ‘peteca cair’, caso deixem seu nome sujo na praça, caso continuem ‘anarquizando sua reputação’. E alerta: “não adianta ficar rezando, falando, reclamando, é preciso fazer alguma coisa, é preciso uma atitude. Se o diabo baixar de uma vez por aí, se o mal acontecer, vocês já estão sabendo, a responsabilidade não é minha. Além do que, se alguém ligar para vocês dizendo ser eu, pode ser um trote do Diabo que já desceu”. E então, para finalizar a música, uma voz sombria ao fundo diz: “Eu já estou aqui.”

Segunda máscara: Judas
Lançado em 1978, o Judas de Raul reivindica o direito de contar sua versão da história, daquela famosa história da traição de Cristo, de onde ele, o discípulo escolhido, saiu amaldiçoado, responsabilizado pela ‘marca sagrada da cruz’ que pesa sobre a cristandade ao longo de todos esses séculos. O caso curioso é que, nesse mesmo ano, apenas alguns meses antes do lançamento de Mata Virgem, foi descoberto, nas areias do deserto de El Minya, no Egito, um manuscrito encadernado em couro, datado do século III que, traduzido para o português, chamou-se O Evangelho de Judas5. Teria Raul se inspirado nesse acontecimento?
No vídeo clipe da música, veiculado na época pelo Fantástico, Rede Globo, Raul interpreta Judas. Vestido com uma túnica branca à moda dos pastores de rebanhos, carrega por cima um manto vermelho. Caminhando sem direção pelo deserto, leva também uma corda e um saquinho com moedas. Ao longo do percurso, canta:

Parte de um plano secreto
Amigo fiel de Jesus
Eu fui escolhido por ele
Para pregá-lo na cruz
Cristo morreu como um homem
Um mártir da salvação
Deixando para mim seu amigo
O sinal da traição.
[...]
Se eu não o tivesse traído
Morreria cercado de luz
E o mundo hoje então não teria
A marca sagrada da cruz
E para provar que me amava
Pediu outro gesto de amor
Pediu que o traísse com um beijo
Que minha boca então marcou.
[...]
(Raul Seixas. Judas, Mata virgem, 1978)

Terceira máscara: Mensageiro do Diabo
Rock n’roll da pesada, com direito a trio de metais e órgão, o Rock do Diabo também virou vídeo clipe. Raul, de vermelho, se coloca a frente da banda. Mais ao fundo é projetada uma tela ampliada do Salvador Dalí: Mercado de escravos com o busto desaparecido de Voltaire. Uma imagem surrealista que surge no cenário e subliminarmente sugere a ligação dos escravos africanos com o rock. 

Diabo
O diabo usa capote
É rock! É toque! É forte
Diabo
Foi ele mesmo que
Me deu os toques
Enquanto Freud
Explica as coisas
O diabo fica dando os toques
Existem dois diabos
Só que um parou na pista
Um deles é o do toque
O outro é aquele do exorcista
[...]
(Raul Seixas. Rock do Diabo, Novo Aeon, 1975)

O personagem-narrador coloca-se como mensageiro do Diabo, aquele que passa adiante ‘os toques’ do pai do rock. Todavia, anuncia que há um cuidado a ser tomado: ‘existem dois diabos’. Os que procuram pelo pai do rock devem saber diferenciá-lo ‘daquele que parou na pista’. Esse segundo, o ‘do exorcista’, é também o que normalmente figura nas explicações psicológicas, pois é sabido que, o que alguns chamam de loucura, outros chamam de possessão. 

Quarta máscara: anarquista libertário
Anarquista, o personagem-narrador de A maçã endereça seu discurso à sua mulher. Em coral com Émile Armand e Errico Malatesta, por exemplo, o marido tenta evitar a cristalização dos sentimentos sugerindo a liberdade sexual. Para ele, a monogamia ‘profana o amor de todos os mortais’ ao barrar o livre fluir do desejo. O amor, acredita, deve circular entre outras pessoas para não se gastar, para não se empobrecer. Para ele, o amor deve ser livre.

[...]
Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais
Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar
[...]
(Raul Seixas. A maçã, Novo Aeon, 1975)

A liberdade dá longevidade ao amor. Tal como manifesto por Malatesta no texto “Amor e anarquia”, do livro Socialismo e anarquia, o personagem deseja que os “homens e mulheres possam amar-se e unir-se livremente apenas por amor, sem nenhuma violência legal, econômica ou física6.
Mas, continua Malatesta,

[...] a liberdade, mesmo sendo a única solução que podemos e devemos oferecer, não resolve radicalmente o problema, pois o amor, para satisfazer-se, tem necessidade de duas liberdades que concordam e que frequentemente discordam; e deve-se levar em conta que a liberdade de fazer o que se quer é uma frase desprovida de sentido quando não se sabe o que se querer. (Malatesta, Amor e anarquia)

Esse descompasso de duas liberdades, esse recorrente dilema que gravita entre o domínio da alma e do corpo de outrem e a liberdade dos sentimentos é vivenciada também pelo personagem de Raul Seixas. Ele diz: 

[...]
Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi que além de dois existem mais
Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar
(Raul Seixas. A maçã, Novo Aeon, 1975)

Quinta máscara: aposentado indignado
Essa é a voz de um cidadão aposentado que, desde a juventude, veio tropeçando nos modelos pré-estabelecidos de vida. Desconfiava dos costumes aceitos e até estimulados pelo seu ambiente cultural. Quando jovem, planejava se comunicar com ‘seres vindo do espaço’, porém, antes mesmo que a empreitada fosse realizada, sua garota lhe deu a seguinte notícia: ‘você vai ver tudo no cinema’. Indignado, o homem argumenta: ‘e onde está a vida?’, ‘cadê a experiência?’, ‘querem trocar minha vivência em nome da ciência?’, ‘e a minha independência?’.
E eis que a vida passa e o homem medita a respeito de sua história:

Durante a vida inteira eu trabalhei pra me aposentar
Paguei seguro de vida para morrer sem me aporrinhar
Depois de tanto esforço patrão me deu caneta de ouro
Dizendo enfia no bolso e vá se virar
Tá na hora da velhice
Tá na hora de deitar
Tá na hora da cadeira de balanço, do pijama, do remédio pra tomar
Oh! Divina providência (ência)
E a minha independência
Ah! E minha vida
E minha vida! Onde é que está
(Raul Seixas. Tá na hora, Mata virgem, 1978)
Além das máscaras que Raul criou para os emissores de opiniões, há também as que cobrem a face de seus personagens-destinatários.

Primeira mensagem: para um operário cabisbaixo
Nesse bolero, Raul manda seu recado a um trabalhador, um operário cabisbaixo que ao voltar do trabalho carrega uma expressão triste, pesarosa. Reclama da vida, do marasmo de seu casamento, do salário, do tédio. O cantor, companheiro de boteco, dedica-lhe uma canção:

Você alguma vez se perguntou por quê
Faz sempre aquelas mesmas coisas sem gostar
Mas você faz, sem saber por que, você faz
E a vida é curta
Por que deixar que o mundo
Lhe acorrente os pés
Fingir que é normal estar insatisfeito
Será direito o que você faz com você
Por que você faz isso, por quê
Detesta o patrão no emprego
Sem ver que o patrão sempre esteve em você
E dorme com a esposa por quem já não sente amor
Será que é medo
Por quê? Você faz isso com você
Por que você não pára um pouco de fingir
E rasga esse uniforme que você não quer
Mas você não quer, prefere dormir e não ver
Por que você faz isso, por quê
[...]
(Raul Seixas. Você, O dia em que a Terra parou, 1978)

Segunda mensagem: para a morte
Trágico, o poeta consciente de sua efemeridade, imagina a morte. Quando ela virá? Será bela? Será boa? Será súbita ou lenta? Não, ele não a teme. É-lhe inevitável, ‘talvez o segredo dessa vida’, por quem ele clama: ‘vem, mas demore a chegar, eu te detesto e amo’. E vibrante, o poeta convida a morte para dançar um tango:

[...]
Vou te encontrar vestida de cetim
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
[...]
Oh morte, tu que és tão forte
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite
(Raul Seixas. Canto para a minha morte, Há dez mil anos atrás, 1976)

Terceira mensagem: para os que se ocupam em criar explicações ‘coerentes’ para a vida
“Esqueça”, diz o personagem de Raul, “nenhuma explicação poderá ser coerente com a vida”. E o problema, caros, não é humano, não é linguístico. O fato é que a vida, a vida mesmo, a vida real, ela não é nada coerente, não conhece formas nem conceitos, não se deixa calcular nem decifrar. O recado, nessa música, vai para os grandes teóricos da vida, os criadores de conceitos, os grandes metafísicos: religiosos, filósofos e cientistas.

Não me pergunte por quê
Quem, como, onde, qual, quando, o quê
Deus, Buda, o tudo, o nada, o ocaso, o cosmo
Como o cosmonauta busca o nado, o nada
Seja lá o que for, já é
Não me obrigue a comer
O seu escreveu não leu
Papai mordeu a cabeça
Do Dr. Sugismundo
Porque sem querer cantou de galo
Cada cabeça é um mundo Gismundo
Antes de ler o livro que o guru lhe deu
Você tem que escrever o seu
Chega um ponto que eu sinto que eu pressinto
Lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora
No coração e no sol, no meu peito eu sinto
Na estrela, na testa, eu farejo em todo o universo
Que eu tô vivo
Que eu tô vivo
Que eu tô vivo, vivo, vivo como uma rocha
E eu não pergunto
Porque eu já sei que a vida não é uma resposta
E se eu aconteço aqui se deve ao fato de eu simplesmente ser
Se deve ao fato de eu simplesmente
Mas todo mundo explica
Explica, Freud, o padre explica
Krishnamurti tá vendendo a explicação na livraria, que lhe faz à prestação
E tem Platão que explica, que explica tudo tão bem, vai lá que
Todo mundo explica
Protestante, o auto-falante, o zen-budismo
Brahma, Skol, Capitalismo oculta um cofre de fá, fé, fi, finalismo
Hare Krishna dando a dica
Enquanto aquele papagaio curupaca e implica
Com o carimbo positivo da ciência que aprova e classifica
O que é que a ciência tem
Tem lápis de calcular
Que mais que a ciência tem
Borracha pra depois apagar
Você já foi ao espelho, nego
Não
Então vá
(Raul Seixas. Todo mundo explica, Mata virgem, 1978)

Mas alguém na plateia poderia se levantar e argumentar: o que é então a verdade, sr. mascarado, se todas as explicações não passam de meras explicações? A verdade, ele diria, é uma ilusão linguística: “[...] metáfora, metonímia e antropomorfismo, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias [...]”7. Ao sondar a verdade, ao tentar entender os motivos que levam o homem a criar essa construção “[...] tênue a ponto de ser carregada pelas ondas, firme a ponto de não ser espedaçada pelo sopro de cada vento”8, fica evidente a habilidade humana em elaborar conceitos complexos. Porém, a verdade, esse “domo conceitual infinitamente complicado”, é linguagem humana e, como tal, não há mistério algum em, ao procurá-la “[...] no interior do distrito da razão”, ali encontrá-la9.

[...] Se forjo a definição de animal mamífero e em seguida declaro, depois de inspecionar um camelo: “Vejam, um animal mamífero”, com isso decerto uma verdade é trazida à luz, mas ela é de valor limitado, quero dizer, é cabalmente antropomórfica e não contém um único ponto que seja “verdadeiro em si”, efetivo e universalmente válido, sem levar em conta o homem. (Nietzsche, Sobre verdade e mentira, p. 50).
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”

Gostaria de encerrar mais esse ato do teatro de máscaras de Raul Seixas com uma espécie de imagem-símbolo: a metamorfose ambulante.

[Experimentação, vivência, coração, intuição, liberdade, vida como um palco, ópera rock-vida]

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
[...]
(Raul Seixas. Metamorfose ambulante, Krig-Ha, Bandolo!, 1973)


_______________________________________________________________________________

1. Nietzsche, Genealogia da Moral, p. 90-1.
2. Referências às músicas: D.D.I., Judas, Rock do Diabo, Segredo da luz, A maça, Eu sou egoísta, Sapato 36, Tá na hora (entre outras).
3. Referências às músicas: Você, Babilina, Quando você crescer, Canto para minha morte, Medo da chuva, Teddy boy, rock e brilhantina e Todo mundo explica.
4. Nietzsche. Gaia Ciência, [78, II], p. 106.
5. As informações a respeito da descoberta do manuscrito foram obtidas em artigo publicado pela Folha de São Paulo em seis de abril de 2006. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u59432.shtml. Acessado em: 31/10/2010.
6. Malatesta. “Amor e anarquia”. In: Socialismo e anarquia.
7. Nietzsche. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, p.48.
8. Idem, p. 49.
9. Idem, p. 50.
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Referências bibliográficas

Malatesta, Errico. “Amor e anarquia”. In: Socialismo e anarquia. Trad. Edson Passetti. Disponível em: http://www.arteeanarquia.xpg.com.br/amor_e_anarquia.htm. Acessado em 01/11/2010.

Nietzsche, Friedrich. Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, [78, II], p. 106.

__________. “Terceira dissertação: O que significam os ideias ascéticos”. In: Genealogia da moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 87-149.

__________. “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral”. In: Os pensadores: obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. 2 ed. São Paulo: Abril, 1978, p. 43-52.

Referências videográficas
Raul Seixas entrevistado por Marília Gabriela, 1983. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=epvSo2gT7iw. Acessado em 30/10/2010.

Clipe da música Judas, 1979. Disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=mCjGac2vQBI. Acessado em 01/11/2010.

Crédito

Os personagens de Raul foi originalmente publicado no capítulo "Poéticas sonoras: Estação Raul" em Cartografias da voz: poesia oral e sonora; tradição e vanguarda. Livro organizado por Felipe Grüne Ewald, Frederico Fernandes, e outros. Recebeu financiamento da Fundação Araucária e foi editado pela Letra e voz. São Paulo, 2011, p. 222-247.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

paisagem da janela... do carro

vai passarinho
vive a vida livre
da jaula de quem
aprecia seu canto

voa passarinho
pelos campos e matas
onde a liberdade não é 
chavão de gente confinada

domingo, 18 de março de 2012

Arranque-se, mancebo

Batida por tempestade, recolhe-se a um desconhecido porto africano a esquadra de Ulisses, o solerte vencedor dos troianos. Estavam agora arribando à terra dos Lotófagos, gente boa, amável e hospitaleira. Ulisses verifica logo que, apesar do bom tratamento recebido é preciso sair dali o mais depressa possível. Os nativos ofereceram a três dos visitantes um fruto que, comido, produziu-lhes efeitos terrivelmente estranhos: os gregos esqueceram-se imediatamente do que são e de onde são, e adquiriram de pronto um tão grande amor às pessoas e às coisas que o cercam, que não querem mais ir embora. Os três comedores de lótus só à força foram levados para os barcos e ali tiveram que ser amarrados. Ou sairiam logo ou ficariam para sempre. E Ulisses velejou apressado, fugindo da flor que produz o esquecimento.

Baseado neste episódio, o renomado novelista inglês Somerset Maugham produziu um dos seus melhores contos intitulado "O comedor de lódão". É a estória de um funcionário inglês que vai passar umas férias na ilha de Capri, perto de Nápolis e historicamente famosa pelas suas belezas naturais e por ter ali vivido uma vida depravadíssima o imperador Tibério. Diz Axel Munthe em seu "Livro de San Michele" que até hoje, quando acontece algo doloroso ou estranho na ilha, os moradores garantem que aquilo é "obra de Tibério" - "coisa" do libidinoso imperador. O inglês, já cinquentão, ficou fascinado, embasbacado, fanático pela ilha. Tratou de estudar um meio de ficar morando em Capri. Passou a mão num lápis, fez uns cálculos e chegou a esta conclusão: Tinha um seguro para a velhice que desde moço vinha pagando: este seguro poderia ser recebido já, com um desconto razoável; seu emprego ele poderia vendê-lo a qualquer candidato, o que lhe daria uns bons cobres. Ainda de lápis na mão calculou quanto gastaria por ano na ilha e quantos anos ainda poderia viver. Em números: teria no bolso mil contos, gastaria 100 contos por ano e, no máximo viveria mais uns 10 anos. Seu médico já não lhe repetira muitas vezes que a sua vida estava por um fio? Não fora mesmo por motivo de saúde que viera passar as suas férias ao cálido sol do Mediterrâneo? Decidiu-se. Voltou à Inglaterra, recebeu o seguro, vendeu o emprego, veio para a ilha, contratou uma pensão e foi viver... O novelista o conheceu na ilha quinze anos depois. Vivia ele das esmolas que recebia em troca de servicinhos que prestava aqui e acolá. Não morrera no prazo marcado. O clima sarara-o e a nova vida lhe dera razões de sobra para viver. Suicidar-se não quis ou não teve coragem. Agora, maltrapilho, sujo, barbudo, escondia-se à aproximação de pessoas estranhas ou fugia abertamente se fossem elas da Inglaterra. Não queria que conhecessem o seu drama, a história do seu fracasso.

Ouvi na minha infância um orador contar que existia uma ave, uma espécie de águia, talvez, que faz o ninho assim: escolhe galhos cheios de espinhos e os dispõe na forma costumeira que têm os ninhos. A seguir forra-o por dentro com algodão, paina ou penas macias. Quando os filhotes emplumam e chega o momento de aprender a voar, só há um meio de arrancá-los do ninho onde querem ficar perenemente no " dolce far niente": é subtrair-lhes o gostoso colchão e deixá-los a se espetarem nos espinhos. Aí eles não têm outro recurso: arrancam-se... E aos trambolhões e aos sustos vão perdendo o medo da amplidão e em pouco tempo passam a viver perigosamente uma vida de liberdade e segurança. São os senhores do espaço, os vencedores das procelas, os que voam mais alto.

Você quer saber mesmo, meu rapaz, onde é a terra dos Lotófagos? Pode ser a sua casa, o seu distrito, o seu bairro, a sua cidade. Quer saber o nome do comedor de lódão do novelista? Pode ser o seu ou o do seu colega, o de um seu amigo.

Embalado pelas facilidades da casa do papai, tolhido pelos doces laços do afeto da família, preso aos encantos de uma jovem bonita que lhe quer bem, o moço sente a enorme tentação de desistir da luta antes mesmo de começá-la. Na idade propícia para a conquista de conhecimentos e de meios que o capacitem para enfrentar triunfalmente os embates da vida, ele sente a inebriante tentação de ficar indefinidamente devorando uma a uma as dulçorosas flores de lótus que o ambiente doméstico e citadino lhe oferece em bandeja de prata. E o seu patrimônio mais precioso, esse que não poderá jamais recuperar por mais dinheiro que venha a ganhar, estará perdido para sempre: o tempo que se foi.

Enervado pela monotonia, pela rotina de todo dia, pela mesmice das semanas e dos meses, pela repetição, das coisas e das caras, o moço degenera fatalmente. No jogo, na bebida, na frequência a lugares onde não mandaria um irmão mais novo ou um filho se o tivesse, procura interromper o círculo vicioso que o exaspera e esmaga.

A um jovem amigo que me procurou nesta semana perguntando-me: - "E agora, professor, que é que eu faço?" - respondi-lhe usando o verbo que está na moda atualmente: Arranque-se! Gostei do verbo pela fidelidade que existe na ideia formada em nossa mente: é preciso realmente que o moço "se arranque". Sente-se aqui a ideia de força, força compulsória que desprende do solo, com as raízes, a planta que se quer levar para um sítio melhor para ela e para todos que lhe querem bem. Seus estudos aqui terminaram? Não pense que já ganhou a parada. Ela apenas começou. Esses certificados, esses diplomas, são apenas armas decisivas para a vitória daqueles que estão aptos moral e espiritualmente para a luta, mas podem ser apenas trambolhos que dificultam a debandada daqueles que esperam tão somente o brado de "salve-se quem puder".

Arranque-se! Vá continuar os seus estudos numa cidade maior, vá aprender a dar às coisas o exato valor que elas merecem, vá temperar o seu caráter na forja do trabalho e da necessidade. E volte apenas como um guerreiro que momentaneamente deixa a batalha para um repouso revigorador, ou então venha triunfante contribuir com a sua capacidade plenamente desenvolvida para o progresso, o bem estar de sua terra. Se for preciso fazer sangrar o coração nos espinheiros da saudade e da solidão, faça-o agora quando a cicatrização é mais fácil. Da solitude e da mudez da crisálida que vegeta no recanto do jardim, decorrido o prazo de sacrifício que a si própria fixou uma feia lagarta, surgirá a flor alada de uma borboleta multicor. Arranque-se!

Crônica de Célio Rodrigues Siqueira escrita em 1961 e publicada no livro "Cinzeiros e Jequitibás", de 1985.

terça-feira, 6 de março de 2012

tempestade solar

o Sol está a lamber a Terra!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

o improvável encontro entre cícero, balzac, baudelaire e poe

Fazia dias que a palavra me chamava mas não falava nada. Eu ligava o computador, abria um arquivo em branco, olhava as teclas do teclado e nada. Nem uma mísera palavra falava. Então, desligava tudo e voltava a ler os contos extraordinários do Poe. 

As notícias jornalísticas, geralmente inspiradoras de minha escrita, andavam tão enfadonhas que já não me instigavam a passar horas com elas. As crônicas cotidianas já me cansavam a beleza e não mereciam minha atenção. 

Naquele dia, contudo, eu voltava para casa depois de mais uma noite desventurosa, vinha sem ideia alguma, cambaleando de sono, quase sonhando... Ao passar por um boteco tipo pé de balcão vi com meus próprios olhos uma discussão calorosa entre três ilustres personas. 

Pareciam estrangeiros, ou melhor, eram estrangeiros. As roupas e a maneira de falar não mentiam. Estrangeiros no tempo e no espaço, soou-me como se eles tivessem entrando numa máquina do tempo. Eram eles Baudelaire, Balzac e Poe.

Estavam extasiados com os acontecimentos presenciados durante o dia. Embora aparentassem a satisfação de alguém que comprova uma hipótese, pareciam não acreditar no que seus olhos tinham visto. Estavam arrasados. 

Escondi-me atrás do balcão para ouvir a conversa. Balzac parecia que entrava em transe. "Caros, preciso de uma pena e papel, tenho muitas histórias para escrever sobre as ruas dessas metrópoles modernas. Quanta barbárie, imensas aglomerações, inúmeros automóveis que mais parecem aquelas naves futuristas que imaginávamos voariam entre os planetas!"

"Ora, Balzac, não alucine! Não avacalhe! Que metrópole moderna coisa nenhuma, isso é a própria Roma de Calígula! Uma balburdia!” Gritou da porta um sujeito que acabava de chegar. Era Cícero, o famoso romano. Vejam, as mulheres são insubmissas. Pior, dominaram completamente a vida social. As crianças se assemelham a bestas feras, não sabem nada de história, não sabem cultivar seus sentimentos, não têm habilidade para escrever seus pensamentos, não conseguem olhar além do próprio umbigo. Os próprios mestres não se ocupam com sua formação, apresentam ideias prontas e, a troco de um reles salário, reproduzem verdades enganadoras. Preferem horas de entretenimento às leituras e experimentação da vida. Até os mais ilustres personagens vivem presos às notícias imediatas veiculadas nisso que eles chamam de ‘mídia’. Terrível! Isso é a decadência! Oh! Pobre cultura ocidental!"

"Não exageres, ó antigo orador, as mulheres sempre foram o que são. Leias as minhas “Flores do mal”. Não há nenhuma novidade quanto à vileza feminina. Tu que eras muito romântico para tua época! Falas da educação, das mulheres, porém, não ouvi de tua boca uma só palavra acerca da política, desta república que por aí anda. O que tens a dizer agora, ó grande romano, em relação a isto aí que eles chamam de república? Ou esqueceste todas aquelas belas palavras com que glorificavas o governo romano?"

Nesse momento, Cícero respirou fundo, abanou a cabeça e pediu uma dose da pinga mais forte da casa. Calmamente, disse a Baudelaire: "Hoje, meu caro, os homens veementes preferem viver no ócio prazenteiro e na tranquilidade do que meter-se entre as ondas das tempestades públicas. Já não são como os homens de minha Roma. Hoje o grande amor à defesa da saúde comum não é força que triunfa sempre sobre o ócio e a voluptuosidade. Nem mesmo os sábios dessa época se importam em aplicar seus conhecimentos à coisa pública. Esqueceram-se que a pátria não os gerou nem educou sem esperança de recompensa de sua parte. Pensam que tal formação foi somente para sua comodidade, para procurar retiro pacífico para a sua negligência e lugar tranquilo para seu ócio. Esqueceram-se que a pátria os formou para aproveitar as mais numerosas e melhores faculdades de suas almas, de seu engenho, deixando somente o que a ela possa sobrar para seu uso privado. Monsieur Baudelaire, não tenho mais palavras a perder com essa gente. Calo-me".

Foi então que de um pulo Poe levantou-se da cadeira e disse: "Senhores, anotei aqui na minha cachola algumas ideias para um conto genial. Um conto de terror no futuro, pois espero voltar logo para minha querida época natal e morrer novamente bêbado e feliz nas ruas Baltimore. A história será mais ou menos assim: Naquele dia entrei numa máquina do tempo e fui parar numa cidade medonha do futuro. Era a própria visão do inferno, visão que piorava a medida que eu percebia a empolgação com que as pessoas da época julgavam tal mundo. Elas supunham ser a época mais feliz, mais rica, mais justa, elas acreditavam ter chegado ao ápice da igualdade, liberdade e fraternidade. Vi pessoas destruindo veículos coletivos, enterrando animais vivos, desprezando os mestres, cortando árvores e corrompendo crianças em nome de seus direitos. Vi pessoas degeneradas ocupadas em gozar, gozar, gozar, e conforme elas gozavam viravam uma espécie gosmenta de verme, um verme que maculava todo o planeta e eliminava qualquer possibilidade de regeneração da natureza terrestre. Percebendo a podridão em sua volta, tais vermes começaram a desenvolver técnicas de viagens e colonização interestelar. Queriam apodrecer o universo. Marte, porém, estava atento e acompanhava a movimentação de seres tão desprezíveis. Antes que pudessem partir de seu fétido planeta, o deus da guerra reuniu o restante dos guerreiros do panteão romano e partiu para cima deles..."

"Ah, pode parar com essa conversa, mister Poe, deixe-me contar essa história por um viés mais antropológico e sucinto", pediu Balzac. "Naquele dia fatídico vislumbrei os reflexos da decadência da cultura humana. Vi confirmado meu palpite acerca do fanatismo da individualidade e comprovei minha hipótese lançada em 1833, quando escrevia Ferragus: Quanto mais nossas leis tenderem a estabelecer uma igualdade impossível, tanto mais nossos costumes se afastarão delas. Sim, era uma época em que as pessoas, os vermes de Poe, se vangloriavam com o nível de igualdade que julgavam ter alcançado. Pobres criaturas, a ignorância das épocas passadas, a predominância do imediato, a tendência à padronização da experiência vivida não lhes permitia ver as diferenças. E eram tantas as diferenças, e cada uma delas tão certa de si mesma, que o desastre aconteceu. Quando menos se esper a v....."

Então presenciei uma cena surpreendente. A voz de Balzac começou a ficar longínqua, já não consiga entender direito o que ele falava. Olhei para os demais e vi que eles estavam ficando brancos, translúcidos e começavam a desaparecer. Quando olhei de novo para Balzac, não havia mais nada. As quatro personas tinham desaparecido do bar, literalmente tinham evaporado. 

Fiquei muito curioso para saber o resto da história, mas não tinha mais o que fazer ali. Voltei para casa, o sol já começa a raiar. Dormi profundamente por quase dez horas. Quando acordei, para meu grande espanto, encontrei caído ao pé da cama um bilhete escrito com a caligrafia de Balzac. Em letras garrafais, dizia: "O acaso é o maior romancista do mundo. Continue sua história".


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

deus

a vida é deus.
quanto ela tiver de morrer,
morrerá.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

escrito antigo

O TEMPO MOVIMENTA O VENTO MOVIMENTA O GALHO MOVIMENTA A FOLHA.

O SOL ILUMINA O DIA ILUMINA A VIDA ILUMINA A MORTE.

O FOGO QUEIMA A VELA QUEIMA O PAPEL QUEIMA.

O CHEIRO ACENDE A MEMÓRIA ACENDE A SAUDADE ACENDE A SOLIDÃO.

A PALAVRA REVELA O PENSAMENTO REVELA O SEGREDO REVELA O ERRADO.

O PRESENTE INTERPRETA A HISTÓRIA INTERPRETA O PASSADO.

O PASSADO É O PERFUME DE ALGUÉM QUE JÁ PASSOU.

190 anos em 17 linhas

Nas curvas da estrada de Santos,
Às margens de um tal Ipiranga
Foi que Pedro deu adeus ao sonho imperial.
Se fosse hoje, alguns mais nostálgicos diriam:
“Foi então que perdemos a chance
De nos tornarmos europeus.”
Outros mais entusiasmados gritariam:
“Um viva à independência do Brasil!”
Mas a maioria continuaria se perguntando:
“Que diferença fez?”

Os nostálgicos, cabisbaixos, responderiam:
“Foi assim que nos iniciamos no 3º mundo.”
E aqueles, estusiasmados, comentariam:
“Vamos nos tornar uma potência mundial, uma Metrópole, o paraíso agro-exportador.
O futuro nos espera.”
E a maioria, perplexa, concluiria:
Realmente, que diferença fez!”

domingo, 15 de janeiro de 2012

domingo, 8 de janeiro de 2012

da estação raul: todo mundo explica

Esse programa vai para todos os
Cientistas
Zen budistas
Capitalistas
Platonistas
Freudistas
Protestantes
Auto-falantes
do meu Brasil Varonil!!!!

Porque um dia, em um pequenino planeta, animais inteligentes inventaram as palavras e começaram a dar nomes às coisas.
De início, inventaram um nome para si próprios:
Humanos...
Depois, usaram as palavras para descrever o mundo, compartilhar experiências, dar sentido aos sentimentos.
Porém, conforme o tempo foi passando, os Humanos começaram a confundir as palavras e as coisas.
Esqueceram que as coisas existiam antes das palavras, esqueceram, também, que as coisas continuariam existindo caso as palavras se calassem.
Esqueceram que as palavras eram as metáforas do mundo, que elas igualavam coisas que não eram iguais.
Agora, ao invés de viver a vida, ficam tentando explicá-la.


Para ouvir o programa "Todo mundo explica", que foi ao ar da UEL fm no dia 27/12/2010,
clique aqui.

sábado, 7 de janeiro de 2012

pseudo-saber

nunca é sábio quem se ilude com teorias
e pensa assim conhecer o mistério das pessoas
pobre devoto
pensa que o mundo tem o tamanho de sua certeza
acredita que inventando padrões poderá medir a vida
ingênuo e egocêntrico
não percebeu que diz apenas de si mesmo

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

cinza céu azul

crédito da foto: fábio m. bueno

Gosto de sentir a tristeza de um dia nublado.
Eu me recarrego com a tristeza de um dia nublado.
Me reencanto com outros lugares e, quem sabe, com outras épocas.
Me sinto em Glascow e também em Minas Gerais.
Não me pergunte por quê.
Apenas sinto, por um instante, a existência de outro espaço-tempo,
Como diria meu amigo.
Gosto de sentir a tristeza de um dia nublado,
Porque isto é pura poesia.


E eis que a céu se pinta de azul.
Azul vivo, brilhante.
As folhas verdes, bem verdes das árvores e arbustos,
Refletem a cor amarela do amarelo do sol.
O vento de inverno esvoaça as cortinas, bate a porta e leva a poeira.
Me é extremamente aconchegante, apesar de frio.
Hoje as flores estarão felizes.
Hoje elas crescerão e iluminarão a face do observador.
Hoje é dia de romã.

sábado, 17 de dezembro de 2011

atualizando o desafio

foi anunciado aos quatro cantos
- a literatura vai te salvar -

aceitou o desafio
um jogo de palavras
inventar mundos com sensações
(as palavras são sensações
para quem lê)

mas o tempo, o tempo
o tempo das palavras literárias tem outro relógio
ele não se importa com prazos e contratos
o tempo das palavras literárias se pauta em personagens
não se atém ao ritmo do dia a dia de gente real

para ser poesia
a palavra esquece da vida!
e vive...


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

Eu de adjetivos - Os Novos Baianos



Entre o passo e a consequência
Eu de a, de a... dje

Por todos os ladrilhos pisados, passados
Passando de risco a traço
Pra ser caminho
Mil maços de caminhos

Não vejo outro circuito das luzes da minha terra
As luzes são de fogo, aroma e tocha!
As dúvidas se esvaem tranquilas na palma da minha mão
Eu vou por cima das minas, das minas do rei Salomão

Não vejo um longo circuito das luzes da minha terra
As luzes são de fogo, aroma e tocha
As dúvidas embalam tranquilas na palma da minha mão
Eu vou por cima das minas, das minas do rei Salomão

sábado, 10 de dezembro de 2011

um recado me esperava no meio dos recortes de jornais

Pois é, organizar papéis alheios dá nisso. A gente acaba descobrindo tesouros... e descobre também que existiam tesouros escondidos para nós... Em dado momento do trabalho, encontrei um grupo de recortes e textos manuscritos endereçados à minha pessoa... ainda que meu avô não soubesse que a pessoa seria eu. O texto, intitulado "Arquive-se", escrito na clássica caligrafia de Célio Rodrigues Siqueira (clássica para mim, obviamente, que cresci lendo os textos de meu avô...), diz o seguinte:

Arquive-se    
"Tenho uns papéis guardados que vão se perder, bem sei. São recortes que fui ajuntando pelo caminho numa variedade bem reveladora dos transitórios de espírito então vividos, tendo portanto pouco valor para quem vier depois. Alguns porém devem continuar, e a maneira mais segura de garantir-lhes a dilatação dos prazos que precedem ao esquecimento é trazê-los de volta à luz do dia, onde se aquecerão por um momento, antes de voltarem à escuridão. E para alguém que resolve recortar e guardar o que aqui vai, eis o que diz o poeta Antonio Cícero, de quem nunca ouvi falar:


O senso de justiça de Abraão Lincoln estava presente até nos versos que improvisava, como nestes traduzidos por Milton Amado:


Leia agora "A Devolução da Oferta" do poeta indiano Rabindranath Tagore, na tradução de Guilherme de Almeida:


Infelizmente esse recorte se perdeu... ou está perdido. 
Se vier a encontrá-lo, postarei aqui! 


Este, copiei de algum lugar, por considerá-lo original e de leitura agradável, embora não leve a parte alguma: 

E para concluir, por hoje, eis Franz Kafka, o atribulado e genial judeu tcheko, numa página que bem merece ser guardada, como o recomenda o poeta de abertura destes recortes:"





Por fim, para saciar a curiosidade dos leitores de plantão, segue o manuscrito de C.R.S. onde tudo isso está testamentado...


quem ouve? quem houve?

quem ouve? quem houve?